Nada de especial
Provavelmente a lição mais difícil que tive que aprender na
minha vida foi que eu não era especial. Passei toda a minha infância
acreditando que eu era mais inteligente que os outros. A facilidade que eu
tinha de compreender as coisas era fascinante, ou parecia para mim. Sempre
senti que via o mundo de forma diferente, e que as outras crianças não me
compreendiam. Por isso nunca consegui fazer amigos da mesma idade que eu,
sempre eram mais velhos. Aliás, sempre gostei de jovens adultos.
Eu realmente era acima da média na escola, com nenhum esforço.
Pelo contrário, eu não me importava. Simplesmente folheava os livros didáticos
e isso era suficiente. Além disso gostava de escrever, o que ajudava muito a
fazer de conta que entendia das coisas. Isso fez com que eu me sentisse uma
artista e fosse completamente engajada em tudo o que envolvesse artes, política
ou cultura e que eu tivesse acesso.
Vale ressaltar que eu morava em uma cidade pequena, estudei
em muitas escolas (a maioria com a qualidade de ensino duvidosa) e era egocêntrica
a ponto de julgar meus pensamentos através da minha própria opinião. Na minha
mente tudo se encaixava muito bem. Qual não foi o choque de realidade que sofri
quando terminei a escola, me mudei para uma cidade maior e percebi que ouvir
Engenheiros do Hawaii e Teixeirinha, ler Paulo Coelho e conhecer A Odisséia e a
história do golpe militar não fazia de mim uma pessoa especial.
Por isso parei de escrever. Descobri que minha opinião não
importava, havia muitas opiniões parecidas ou melhores. Não foi fácil admitir
isso para mim mesma, na mesma época em que eu reprovava no vestibular e
descobria que não tinha mais tanta certeza do que eu sempre soube querer fazer
da vida. Enfim, as dúvidas entre fazer jornalismo ou medicina acabaram me
levando a entrar em engenharia civil, ou, mais importante, uma universidade.
Acredito que na universidade acabei aprendendo muito mais
sobre a vida do que sobre minha profissão. Profissão, aliás, que tenho um certo
amor e ódio. Só gosto pois me permite trabalhar no meu próprio ritmo e tempo, e
não trabalhar o tempo todo. E permite viajar. Mas isso é outra parte da
história. Enfim, ao descobrir que não era ninguém especial, descobri também o
quanto isso era mais divertido.
Para mim os quase 20 anos foram a época de aprender a beber,
conhecer pessoas, participar de festas e rodas culturais (já que eu não era
mais a única que gostava de Chico Buarque e Nelson Rodrigues) e parar de me
importar com tudo. Isso, para quem passou cada dia de sua existência lutando contra
uma crise de ansiedade, só posso atribuir às cervejas no final das aulas. Minha
opinião, inclusive, ficou restrita a quem estivesse interessado em escutar na
mesa de bar.
Mas o que era doce acabou, e veio um novo choque de
realidade. Eu que sempre quis morar no Sul, fui embora para outro estado. Eu
que sempre fui feminista, deixei todos os meus planos de lado para seguir quem
hoje é meu marido. Isso não foi romântico, ou altruísta, mas sim a vida
acontecendo. Nunca dá tempo de pensar direito, e fui sem pensar. Hoje amo o que
fiz, pois conheci um pouco mais do mundo. Mas na época foi muito difícil
encarar o calor, os mosquitos, a distância e as dificuldades.
A ideia de feminismo foi dando lugar à companheirismo. Usando
esses termos é difícil se expressar corretamente, mas só estou afirmando que
não me importo com conceitos de machismo, feminismo e lugar de fala dentro do
relacionamento. Dentro de casa as regras são outras, cada um exerce seu papel
como pessoa. Na vida real ainda luto pelo direito das mulheres serem/fazerem/estarem
onde bem entenderem, mas em casa não preciso. Temos um lugar que é juntos,
mesmo quando ficamos distantes fisicamente. Isso é muito mais bonito e romântico
do que se importar com quem deixou a profissão meio de lado.
E veio a pandemia, 2020. Com ela, acho que a próxima lição
importante: tudo o que parecia importar, já não importa. O que quero é estar
viva, e perto de quem amo. E infelizmente já não posso mais, não como gostaria.
Pessoas perderam a importância, vida social perdeu a importância. O egoísmo do
mundo se tornou mais claro do que nunca, e isso não posso mais esquecer.
Hoje decidi que cresci mais do que precisava nos últimos
meses, e que isso importa. E minha opinião, para essa ninguém liga. São só
palavras, e palavras já não importam mais tanto quanto pessoas, tanto quanto
momentos. É, acabou soando meio poético, mas é difícil não falas de forma dramática
quando se está vivendo uma guerra. Ainda vou falar mais sobre isso, e sobre a
outra história que fiquei devendo. A parte em que vou dizer que amo demais
viajar, mas viajar só faz sentido quando se tem uma casa para voltar. Nem
sempre eu tive, nos últimos anos.
O que decidi realmente é que não preciso escrever por que
alguém se importa, nem me preocupar em soar inteligente. Que se foda, a burrice
está gritando a plenos pulmões no mundo. Vamos falar de poesia? Enquanto ainda
tenho pulmões quero gritar, e falar e cantar. E, nesse caso específico,
enquanto ainda tenho mãos quero escrever e enquanto a internet permitir quero publicar.
E nunca mais parar de fazer isso, por que, se estou falando de lições: Aprendi
que calar a boca é algo idiota de se fazer. Quando parei de falar, parei de
saber o que eu pensava. Estou aqui para descobrir novamente.
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