Postagens

Passado

 A garota resmungava no banco de trás do carro. Devia estar faminta, ou então apenas incomodada de ficar tanto tempo amarrada na cadeirinha. O homem parou o carro no acostamento e abriu aporta para ouvir o zunido dos poucos carros que passavam. Livrou sua filha dos cintos apertados da cadeirinha de bebês e pegou a mamadeira que trazia preparada na bolsa. Trancou o carro e sentou-se em uma pedra à beira da estrada para amamentar a pequena. Gostava de observá-la tomar o leite, sempre com aqueles olhinhos muito vivos e muito verdes, grandes e atentos ao mundo.       Ainda era cedo para a tarde cair, mas o céu estava se fechando em nuvens escuras que pareciam trazer consigo o breu da noite. O vento forte ameaçava arrancar as raízes das arvores, anunciando uma tempestade para o final do dia. O rapaz simplesmente amava essa tensão que os relâmpagos traziam, apesar de achar que logo teria que embarcar sua filha no carro e levá-la para casa, onde a única água que poderia ent...

Uma grande amiga

Quando eu era criança tive uma amiga imaginária.  Provavelmente a primeira amiga que tive, meu círculo social era restrito aos 20 meses de idade. Sei que em breve teria uma irmã para ensinar todas as coisas que não sabia, mas naquele momento ainda era uma filha única. Carente de atenção, como todas as crianças nas mesmas circunstâncias . Então veio Carolina para brincar. Muito conveniente, considerando que jamais desenvolvi a habilidade de brincar sozinha. Ao contrário da minha futura irmã, que sabia criar uma história fantástica apenas com os próprios dedinhos, ou qualquer coisa que pudesse imaginar ser personagens de uma trama. Minha imaginação sempre foi limitada e totalmente controlada, o que é um absurdo considerando a dificuldade que tenho de separá-la da realidade. Contudo, veio Carolina. Não me lembro muito bem dela, mas sei que estava lá. Brincávamos, corríamos, alimentávamos os passarinhos e trocávamos confidências. Sabe-se lá o que uma criança de menos de 2 anos de idade...

Terças-feiras ou domingos

Às vezes o nosso dia fica mais leve do que deveria.  Não por que está agradável, ou o tempo está firme. mas por que a realidade é mais densa do que os pensamentos, e algumas vezes os pensamentos tomam conta.  Nesses dias começo a sonhar antes de tentar adormecer e o tempo voa como uma pipa, que sempre cai próxima de onde foi solta. Nesses dias também muda a importância das coisas, e os sentimentos mudos, o mate gelado e uma tela em branco são minha grande companhia.  Palavras são a única forma de se expressar quando nosso corpo não obedece nossas ordens, porém meu idioma não é tão vasto quanto o que penso.  Hoje não foi um desses dias. Foi um dia agradável, o sol surgiu para matar as saudades. É uma pena que onde moro anoiteça cedo demais!

Elefantes - A cidade que não tinha amor

A maioria das pessoas não se lembra, mas há muito tempo atrás existiu uma cidade especial. Talvez fosse algo na composição da água de seus rios, ou um dos gases emitidos por sua vegetação peculiar, ou mesmo uma brincadeira divina. Na falta de material para estudar esse assunto, posso apenas especular a causa de tal fenômeno. Provavelmente hoje é impossível a razão, mas o fato é que todos na cidade tinham uma memória excepcional. O dia do nascimento, certamente, era um momento confuso e obscuro. As primeiras sensações eram assustadoras e dolorosas, mas com o tempo todos se habituavam ao mundo. E a cada dia que passasse, todos os indivíduos guardavam suas impressões e sentimentos de forma estupidamente nítida, em um cérebro já sobrecarregado. E formou-se uma população com memórias infinitas. Pessoas que lembravam de cada momento vivido, de toda a dor e sofrimento que já haviam passado. Certamente exemplares da forma de vida mais longa que qualquer ser humano possa vivenciar. O grande pro...

Cansei de ser sexy - e outras mentiras que contamos para o espelho

Se existe uma coisa em que eu era péssima quando criança era usar vestidos. Eu não sabia sentar de pernas fechadas, erguia a saia acima da cabeça para fazer graça e vivia sentada no chão, no muro ou em cima de árvores. Me diziam que era feio uma garotinha se portar assim. Demorei muito tempo para entender que, na verdade, nunca foi para o vestido que as pessoas olhavam. Confesso que realmente nunca tive muita classe. Sei me portar em sociedade, aprendi nos livros. Mas nunca me importei tanto com parecer comportada. Pelo contrário, sempre admirei as pequenas liberdades sociais das quais minha geração tanto se beneficia. As lojas de departamento vendem roupas de todas as cores, larguras e comprimentos. A preços módicos, por isso mando um salve para a importação de produtos supérfluos da China, graças a isso tenho um shortinho para cada dia da semana no meu armário. Desde a invenção da palavra feminismo o comportamento das mulheres ganhou muito mais liberdade e consciência de si próprio. ...

Quando o pão vira cerveja

Todo mundo sempre brinca que deveria ter um blog de dieta. "Como ser bonito e saudável tomando cerveja e comendo o que quer?" Sim, parece que descobri o segredo do universo. Aprendi um pouquinho sobre nutrição, troquei o pão pelo vinho e voilá: temos bebidas e comidas maravilhosas inseridas na dieta. Não na dieta pra emagrecer, mas naquela para viver bem. Pra quem não sabe, eu sempre fui gordinha. E sempre odiei isso. Desde que me entendo por gente, estou tentando ser mais magra. Há alguns anos tenho conseguido controlar meu peso, trabalho com limites. Se chegar aos 62 kg preciso me controlar, se chegar aos 65 é desespero, e se baixar dos 60 solto fogos. Funciona para mim, só cheguei nesse peso no final da adolescência.  Por alguns anos sofri muito com meu peso, que nem era tão absurdo. Mas quem já tentou emagrecer sabe que é tudo sobre números, e no fim os números não importam. Ninguém nunca está satisfeito o suficiente, nunca estamos bonitas o suficiente. Ainda assim, tenho...

Precisamos falar sobre a pandemia

Certa feita li sobre um experimento em que o mundo se invertia. Um pesquisador chamado  Theodor Erismann resolveu testar a capacidade de adaptação das pessoas a possíveis mudanças no universo. Criou um óculos com um sistema de espelhos que fazia com que a pessoa que usasse os óculos enxergasse o mundo de ponta cabeça. Um aluno dele serviu de cobaia e usou, com muitas dificuldades, os óculos por alguns dias. Cerca de 10 dias depois essa cobaia passou a achar normal o mundo através dos óculos, como se tivesse se endireitado. Depois de habituado a esse "novo normal", ao tirarem os óculos o aluno teve dificuldades em entender o mundo novamente, levando dias para se habituar à nova relalidade. Meu ponto é: Podemos nos adaptar a qualquer coisa. Nunca entendi como as pessoas podiam viver por anos em guerra, ou em cativeiro. Pois bem, há um ano me pediram para passar 15 dias dentro de casa, que tinha um novo vírus altamente letal ameaçando o planeta, e iríamos segurar o contágio faze...