Cansei de ser sexy - e outras mentiras que contamos para o espelho
Se existe uma coisa em que eu era péssima quando criança era usar vestidos. Eu não sabia sentar de pernas fechadas, erguia a saia acima da cabeça para fazer graça e vivia sentada no chão, no muro ou em cima de árvores. Me diziam que era feio uma garotinha se portar assim. Demorei muito tempo para entender que, na verdade, nunca foi para o vestido que as pessoas olhavam.
Confesso que realmente nunca tive muita classe. Sei me portar em sociedade, aprendi nos livros. Mas nunca me importei tanto com parecer comportada. Pelo contrário, sempre admirei as pequenas liberdades sociais das quais minha geração tanto se beneficia. As lojas de departamento vendem roupas de todas as cores, larguras e comprimentos. A preços módicos, por isso mando um salve para a importação de produtos supérfluos da China, graças a isso tenho um shortinho para cada dia da semana no meu armário.
Desde a invenção da palavra feminismo o comportamento das mulheres ganhou muito mais liberdade e consciência de si próprio. Digo invenção da palavra mesmo, pois acredito que as coisas deixam de existir se não tiverem um nome. O sentimento continua existindo, mas se não soubermos como definir só serve para gerar ansiedade. Por isso ainda estamos aprendendo a passos lentos. Por exemplo, cerca de 65 anos atrás minha avó, que já tinha um emprego e uma filha, estava iniciando um casamento em que, pelo menos pelos próximos 65 anos, seria uma mulher com a mesma voz e vez do marido ao tomar as decisões sobre a vida e a casa. Isso era revolucionário, mas ela sequer sabia ou se importava. Estava estabelecendo seu espaço no mundo, muito tempo antes de ouvir falar sobre feminismo. Talvez por isso minha avó viva me dando conselhos sobre como usar melhor as saias, embora seja totalmente favorável a uma saia curtinha.
Para mim, feminismo é sobre liberdade. E liberdade é poder falar, pensar e agir como bem entender. Como, por motivos óbvios, ninguém pode se comportar exatamente como gostaria em sociedade (caso pudéssemos o conceito de sociedade perderia seu sentido, e precisamos da sociedade), o máximo que pudemos fazer é baralhar pelo direito de nos comportar como os homens. Isso deveria significar que não preciso me depilar, cuidar do peso, hidratar o cabelo ou fazer as unhas. Para a minha sorte, precisar é diferente de poder. Então posso fazer tudo isso se eu quiser, desde usar um espartilho até depilar a virilha com cera, salvo discussões sobre a brutalidade de ambos os procedimentos.
Então por que tanta culpabilização sobre ser ou não ser sexy, quando, por que e para quem? E por que fingir que isso faz tanta diferença? A questão obviamente não é sexual, aparência física não tem nada a ver com sexo. Ou tem, já que tudo tem a ver com sexo. O ponto é que não é preciso ser sexy para atrair pessoas, nem ser bonita, inteligente ou sequer uma pessoa tolerável. Relações humanas, físicas ou emocionais, são algo tão democrático em nossa sociedade que, para que duas pessoas se relacionem, o único requisito é que as duas pessoas existam. De resto, a humanidade dá um jeito de fazer amigos.
Acho que essa é mais uma daquelas coisas que só aprendemos com o tempo. Ser sexy ou não é uma dessas coisas que não importa para ninguém (a não ser que você se importe com mantras conservadores repetidos por fiéis seguidores de religiões arcaicas). Só o que importa, no final das coisas, é sempre se sentir bem. Ao menos, se sentir bem pelo máximo de tempo possível. Esse é o grande desafio da vida. Confesso que nunca cansei de buscar a beleza, na forma como ela funciona para mim.
Claro, beleza e sensualidade são com certeza conceitos abstratos. Isso significa que não há um padrão predefinido, o que faz com que haja espaço nesta vida para todos se sentirem bem. Como já disse anteriormente, sou uma pessoa de sorte.
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