Precisamos falar sobre a pandemia
Certa feita li sobre um experimento em que o mundo se invertia. Um pesquisador chamado Theodor Erismann resolveu testar a capacidade de adaptação das pessoas a possíveis mudanças no universo. Criou um óculos com um sistema de espelhos que fazia com que a pessoa que usasse os óculos enxergasse o mundo de ponta cabeça. Um aluno dele serviu de cobaia e usou, com muitas dificuldades, os óculos por alguns dias. Cerca de 10 dias depois essa cobaia passou a achar normal o mundo através dos óculos, como se tivesse se endireitado. Depois de habituado a esse "novo normal", ao tirarem os óculos o aluno teve dificuldades em entender o mundo novamente, levando dias para se habituar à nova relalidade.
Meu ponto é: Podemos nos adaptar a qualquer coisa. Nunca entendi como as pessoas podiam viver por anos em guerra, ou em cativeiro. Pois bem, há um ano me pediram para passar 15 dias dentro de casa, que tinha um novo vírus altamente letal ameaçando o planeta, e iríamos segurar o contágio fazendo uma quarentena. Eu ainda estou em casa.
Sejamos dramáticos: eu era a pessoa que mais gostava de sair que eu conheço. Aliás, há alguns anos todas as vezes que alguém me perguntava onde eu morava, a resposta era "é complicado". Quando o tal do vírus surgiu, eu estava morando em um hotel em Foz do Iguaçu e indo para Cascavel nos finais de semana. Agora estou escrevendo dentro de casa, em Naviraí, sozinha num sábado a noite. E não estou reclamando.
Essa pandemia me ensinou demais sobre o ser humano. Hoje vejo que todas as relações sociais se tratam de egoísmo X altruísmo, e um equilíbrio entre esses fatores. Quando as autoridades do mundo inteiro pediram para quem pudesse ficar em casa, principalmente para proteger os grupos de risco, não pensei duas vezes e me isolei para proteger meus pais. Quase todo mundo fez isso naquele momento.
Agora, um ano depois, existe um novo normal. Ele consiste em milhares de mortes por dia no Brasil, uma guerra fria política entre qual remédio ineficaz as pessoas devem tomar para se proteger (já que não temos tratamento para essa doença ainda) e milhões de pessoas agindo como se nada estivesse acontecendo, e outros milhões enfiados em casa para proteger quem sai para trabalhar em baladas. Essa pandemia tornou uma guerra real entre egoísmo e altruísmo.
Não vou apagar, mas já me arrependi da última frase. Ela traduz meu sentimento, mas não minha opinião real. Acho que todo mundo sabe que algo assustador está acontecendo. O problema real é que ninguém sabe direito o que fazer. Se trancar em casa por 1 ano é totalmente inviável (eu mesma saí, e eu mesma peguei Covid, quando estava longe das pessoas que me importo e estou protegendo). Eu tive que sair para trabalhar, para fazer compras, para respirar um pouco de ar puro.
Eu acredito de verdade que todo mundo está tentando fazer o seu melhor. Vi um médico falando que outros médicos receitam remédios que comprovadamente não funcionam apenas como placebo, para não deixar os pacientes sem nenhum tratamento. Vi também pessoas trabalhando como loucas para procurar uma saída para a nossa situação. Vi pessoas oferecendo ajuda, sem ter a menor ideia do que fazer. Pessoas se isolando em casa para proteger outras pessoas, pessoas passando fome por que seus negócios faliram. Vi pessoas se isolando com meia dúzia de conhecidos, tentando adivinhar qual amigo é possível encontrar, e com medo de apertar na mão das pessoas que ama. Medo de matar e medo de morrer por um abraço, que é tão símbolo dos brasileiros. E também vi pessoas tomando Ivermectina para ir livremente na balada, sem sentir tanta culpa (com essas não tenho tanto respeito).
O pior de tudo é ver gente demais morrendo, e não saber quando será nossa vez. Precisamos mesmo falar da pandemia? Não tem jeito né, estamos vivendo uma guerra. A humanidade contra o inimigo invisível, que baixa as defesas e a guarda até dos mais fortes. As pessoas que acreditam na ciência contra as pessoas que tem fé em qualquer cura milagrosa (com certeza não divina, não me lembro de ter visto nenhum Deus divulgando fake news). E um cabo de guerra do governo contra o povo, com os grandes empresários garantindo sua permanência no lado mais forte da corda.
É muito difícil enxergar a tragédia quando estamos vivenciando ela. Uma vez eu fui assaltada, e disso tiro duas lições: A primeira é que nunca é agradável estar do lado errado da arma. A segunda é que só podemos perceber a gravidade das situações depois que a tempestade passa. Essa tempestade já tá fazendo aniversário, e cada vez menos pessoas tem fôlego para soprar as velas. Meu deus, que saudade de uma conversa de boteco.
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