Elefantes - A cidade que não tinha amor

A maioria das pessoas não se lembra, mas há muito tempo atrás existiu uma cidade especial. Talvez fosse algo na composição da água de seus rios, ou um dos gases emitidos por sua vegetação peculiar, ou mesmo uma brincadeira divina. Na falta de material para estudar esse assunto, posso apenas especular a causa de tal fenômeno. Provavelmente hoje é impossível a razão, mas o fato é que todos na cidade tinham uma memória excepcional.
O dia do nascimento, certamente, era um momento confuso e obscuro. As primeiras sensações eram assustadoras e dolorosas, mas com o tempo todos se habituavam ao mundo. E a cada dia que passasse, todos os indivíduos guardavam suas impressões e sentimentos de forma estupidamente nítida, em um cérebro já sobrecarregado.
E formou-se uma população com memórias infinitas. Pessoas que lembravam de cada momento vivido, de toda a dor e sofrimento que já haviam passado. Certamente exemplares da forma de vida mais longa que qualquer ser humano possa vivenciar.
O grande problema é que essa sociedade não poderia ser funcional de maneira alguma. A dor de todos os homens era muito forte, e as emoções muito pesadas para suportar. Deus sabia muito bem o que estava fazendo quando fez com que humanos esquecessem os sofrimentos passados. Caso contrário, ninguém desejaria repetir a dor do parto. Ou mesmo pegar na mão de um amigo, já que relações afetivas perdem completamente o sentido quando vemos todos os erros de uma pessoa estampados nos olhos dela.
Por isso ninguém amava ninguém. Nem se importava. A cidade foi um erro grave de Deus. Erro esse que se corrigiu naturalmente. 
Em poucos anos as pessoas se cansaram de viver. Mas ninguém queria morrer, já que todos tinham muito nitidamente em suas cabeças qual era a sensação da dor. Se nascer doía, morrer com certeza doeria mais. Por isso, simplesmente pararam. Decidiram esquecer do prazer, e à partir desse dia, nunca mais alguém nasceu naquela cidade. Foi apenas questão de tempo.
Hoje ninguém mais se lembra do nome da cidade, ou de quem vivia lá. Problema resolvido.

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