Uma grande amiga
Quando eu era criança tive uma amiga imaginária.
Provavelmente a primeira amiga que tive, meu círculo social era restrito aos 20 meses de idade. Sei que em breve teria uma irmã para ensinar todas as coisas que não sabia, mas naquele momento ainda era uma filha única. Carente de atenção, como todas as crianças nas mesmas circunstâncias. Então veio Carolina para brincar.
Muito conveniente, considerando que jamais desenvolvi a habilidade de brincar sozinha. Ao contrário da minha futura irmã, que sabia criar uma história fantástica apenas com os próprios dedinhos, ou qualquer coisa que pudesse imaginar ser personagens de uma trama. Minha imaginação sempre foi limitada e totalmente controlada, o que é um absurdo considerando a dificuldade que tenho de separá-la da realidade.
Contudo, veio Carolina. Não me lembro muito bem dela, mas sei que estava lá. Brincávamos, corríamos, alimentávamos os passarinhos e trocávamos confidências. Sabe-se lá o que uma criança de menos de 2 anos de idade tem de confidências, gostaria muito de conhecer a Carolina hoje para perguntar.
Deve ter sido uma grande amiga, pois até meus pais se recordam dela com muito carinho. Acredito que ela tenha suprido tão bem minha carência por atenção que, desde o dia em que a perdi, nunca mais soube calar a boca. Estou aqui novamente falando para ninguém prestar atenção. Sorte a minha que sei escrever, provavelmente seria insuportável se não conhecesse uma forma de me expressar que não forçasse as outras pessoas a me entenderem.
Hoje sigo repleta de amigos, que me escutam às vezes. Grandes amigos, uma realidade que pareceu impossível por muitos anos. Agradeço por isso todos os dias. Não sei bem para quem, mas agradeço. Deus sempre foi um grande amigo, isso não faz de mim nada mais do que uma egocêntrica que gosta de ouvir a própria voz. Ainda bem que cresci e entendi muitas coisas. Aprendi a ouvir melhor também, embora me considere um tanto quanto surda.
Queria muito ter Carolina de volta. Como todos os mortos, presumo, isso não será possível. Acho que a matei, antes de completar dois anos de idade. Isso faz de mim uma assassina? Pelo que sei foi um acidente. Eu fui ao banheiro, e como algo ruim do qual queria me livrar, vi Carolina cair no vaso sanitário e acidentamente puxei a descarga. Provavelmente eu tinha péssimos princípios nesse momento, mas tomei a decisão certa: Corri contar para a minha mãe o que tinha acontecido.
Até hoje Carolina é uma piada nos encontros de família. Família, aliás, saudade!!
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