Passado
A garota resmungava no banco de trás do carro. Devia estar faminta, ou então apenas incomodada de ficar tanto tempo amarrada na cadeirinha. O homem parou o carro no acostamento e abriu aporta para ouvir o zunido dos poucos carros que passavam. Livrou sua filha dos cintos apertados da cadeirinha de bebês e pegou a mamadeira que trazia preparada na bolsa. Trancou o carro e sentou-se em uma pedra à beira da estrada para amamentar a pequena. Gostava de observá-la tomar o leite, sempre com aqueles olhinhos muito vivos e muito verdes, grandes e atentos ao mundo.
Ainda era cedo para a tarde cair, mas o céu estava se fechando em nuvens escuras que pareciam trazer consigo o breu da noite. O vento forte ameaçava arrancar as raízes das arvores, anunciando uma tempestade para o final do dia. O rapaz simplesmente amava essa tensão que os relâmpagos traziam, apesar de achar que logo teria que embarcar sua filha no carro e levá-la para casa, onde a única água que poderia entrar viria das poucas goteiras na sala e cozinha. Eram poucos os momentos em que ficava só com a garota; sua esposa acostumara-se a dedicar todo tempo possível à criança, e ele dependia de suas dez horas de trabalho diário para manter a cãs. Mas nessa terça sua esposa tivera de viajar para acompanhar a cesariana de alto risco que sua irmã mais nova iria faze, e ele então se propusera a tirar um dia de folga para cuidar do bebê.
Engraçado como terças-feiras parecem trazer consigo nuvens carregadas de água e elétrons. Dirigia de volta à cidade, de onde tentara fugir por uma tarde, enquanto tentava enxergar o asfalto molhado três metros adiante. Achou mais seguro parar o carro no acostamento; não pretendia causar um acidente que machucasse a criança de apenas seis meses de vida que dormia presa no banco de trás. Quase não dava para ver nada além da água escorrendo pelo vidro. Não havia movimento algum na estrada, mesmo eles estando tão próximos da cidade. Quando o temporal dava suas pequenas estiadas, durante poucos segundos via-se uma luzinha azul pairando no ar, bem longe, perto do céu. Deveria ser um disco voador_que mais poderia ser? Extraterrestres viajando em alguma expedição para vencer o tempo e o espaço do próximo universo? Ou então em busca de humanos para sequestrar e levar como escravos, depois de alterar a memória de seus familiares e companheiros de estrada para que achassem nunca ter perdido seu amigo? Ou talvez fossem os próprios seres humanos vindos do futuro para conhecer a nós, seus antepassados dos primeiros milênios de humanidade. Passara a infância brincando de viajar, criando novos universos, novos seres. Mas agora, o que havia de real era que a chuva cessara e a luz azul desaparecera em meio às poucas estrelas que desapareciam entre as nuvens restantes e ele poderia voltar para sua casa.
A cidade retomara seu movimento habitual, com os faróis de carros se misturando às luzes de postes distantes. O homem ainda dirigia e a garota ria de um chocalho deitada em sua cadeirinha no banco de traz. Não via a hora de chegar em casa com sua filha no colo, para poder abraçar e beijar sua mulher que a essa altura já devia estar preparando o jantar. Passariam a noite juntos e poderiam matar as saudades que desde sempre sentiam. Vida de casal dividida entre as contas pra pagar e o choro da criança, às vezes talvez sexo no sábado à noite. Casa improvisada num apartamento de três cômodos no ultimo andar de um prédio cheio de telhas quebradas. Havia chovido muito e a cozinha devia estar encharcada. O sonho do casamento se tornara real, e agora lembravam do seu amor adolescente, seus sonhos de viagens pelo mundo e noites quentes sentados na areia da praia. Mas sabia estar no lugar certo e com a pessoa certa. O riso da sua filha no banco de trás lhe lembrava disso. E cada noite sem dormir por choro e cólica valeria então a pena. Estacionou em frente ao prédio e tirou a menina do carro, louco de pressa de subir as escadas e voltar para casa.
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